Sobre treta, segredo e axé: cavalo com fogo nas patas [1]

Por Soraya Martins

Reflexões e expansões a partir do espetáculo Segredo, de Helvécio Izabel e Lúcio Ventania; e das cenas O Caminho até Mercedes, de Sol Miranda, e Protótipo para cavalo, de Brunno Olivieira e Bremmer Guimarães.


Foto: Pablo Bernardo 

O branco faz letra, o preto faz treta, disse Muniz Sodré em Verdade Seduzida. Treta não no sentido pejorativo da palavra “jeitinho”. Treta de Sodré, nossa treta, aqui significa astúcia e habilidade na luta, é atuar de modo outro, nas fissuras e brechas, “oposto não à técnica da escrita, mas à ordem humana por ela representada até agora”. segundaTRETA– de produções de desejos, de conceitos estéticos fluídos, de artes negras no plural, de diálogos tensionados, de retidão crítica – que coloca luz em modos e modos de se pensar e realizar arte(s) negra(s), que se coloca também no exercício de produção de pensamento/conhecimento.

O espetáculo Segredo, de Helvécio Izabel e Lúcio Ventania, compôs mais uma segunda de treta e trouxe para o espaço-território do espanca! o segredo, dimensão fundamental para cultura afro-brasileira da diáspora. Mais que mistério, o segredo encenado pelos dois atores resguarda e mantém uma tradição oral que se performatiza a partir de uma dinâmica de comunicação e de existência e vigor das regras do jogo cósmico. Segredo nagô. Em meio a uma composição de detalhes- cenário, figurino e objetos de cena minimalistas, gestos e música- os atores nos contam, através de metáforas extraídas de lendas e contos populares africanos, sobre os pesadelos que perturbam Jabé Enjai e sua relação com o feiticeiro louco, Jabar Jajaa. Mais que contar, encenam a figura dos griots africanos, mostrando que a inscrição da memória e do conhecimento se grafa de várias formas, inclusive, na performance oral. A força que está na ave palavra, no contar. A oralitura na boca e nos poros de Ventania e Izabel, que cuidaram da história do Segredo como kalunga cuidava dos ovos da rola no ninho: rolavam e rolavam, mas não caíam.


Foto: Pablo Bernardo

E se abre O caminho até Mercedes, solo de Sol Miranda, que foi buscar na dança afro-brasileira de Mercedes Baptista elementos-base para compor o trabalho. Axé, no sentido de ancestralidade preta que comunica os mundos, trança e espiraliza os tempos, é uma palavra-caminho que reverbera no corpo da atriz Sol, a partir da força do axé plantado no e pelo tambor e do corpo afro-físico – energia ancestral – de Mercedes. Entre as lembranças e esquecimentos, dores e delícias que permeiam a trajetória da grande ícone da dança no Brasil; o jogo de perguntas e respostas “todo mundo ficou sabendo menos eu?” “eu preciso saber o que vem depois”; e a memória tecida na pele, o corpo da atriz em performance aparece não simplesmente como um corpo treinado, mas como corpo culturalmente imantado, onde são inscritos saberes e cosmovisões outras. O corpo aqui é um corpo em temporalidade – do antes, do agora, do depois e do depois ainda-, corpo político e de afeto, de luzes sobreviventes dos vaga-lumes. Corpo de Axé.


Foto: Pablo Bernardo

De caminho, passo a passo… Protótipo para cavalo, experimento cênico de Brunno Oliveira e Bremmer Guimarães, vem como um cavalo de corrida, passando com amor e violência pelos lugares que se querer questionar, pelas feridas que se quer tocar e aproxima duas instâncias aparentemente díspares -“o amor é uma violência tão cruel quanto à guerra.” Um microfone, um ator, vários papéis espalhados pelo chão formando uma cama de denúncia, com escritos do tipo: preto, bicha. Um microfone e o desejo/ânsia por falar do ator. Tem-se a possibilidade de fala. É um manifesto. É importante e necessário que ele fale. Falar e viver é preciso? Ele fala de presença. Corpo, rito, linguagem, gestos, amor, crise, trânsito, subversão. Fala de presença negra. Canta a presença e a negrura. E me suscita várias perguntas: como desenhar uma pretura-presença que vai da palavra (que dependendo de como é dada, o vento leva e só a intenção não basta) ao corpo? Esse trânsito é ou não dispensável? Sim ou não e quando? Como subverter as dicotomias?A palavra solta no tempo-espaço é o si mesmo da dramaturgia? Como a pretura atravessa todos os corpos, independentemente de cor?  Essas perguntas não estão restritas a Protótipo que, assim como as cenas contemporâneas negras, é um cavalo novo com fogo nas patas correndo em direção ao mar[2].

[1] Por Elise, de Grace Passô.
[2] Referência a Por Elise, de Grace Passô.


Foto: Pablo Bernardo


Soraya Martins é Doutoranda em Literaturas de Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Mestre em Teoria da Literatura pela FALE/UFMG. Graduada em Letras – Licenciatura Português e Italiano – UFMG. Formada no Teatro Universitário (TU – UFMG), cursou Semiologia do Teatro no Dipartimento di Musica e Spettecolo dell´Università di Bologna, Itália. Desde 2011, atua no cenário artístico mineiro como atriz e pesquisadora do teatro negro brasileiro. Escreve críticas teatrais para o blog Horizonte da Cena e para o projeto segundaPRETA. Tem seu currículo trabalhos realizados junto a diversas companhias, entre elas, Companhia Candongas e outras firulas, Grupo do Beco, Caixa de Fósforos e, atualmente, trabalha com o Grupo Espanca.