Sobre quedas e tropeços

Por Soraya Martins

Reflexão/questionamentos a partir do espetáculo Lótus, de Danielle Anatólio.

segunda – Preta. Dia de Exu. Princípio dinâmico de individualização e comunicação. A instância propulsora de interpretação, a ambivalência e a multiplicidade fazem desse orixá um topos discursivo que intervém na formulação de sentido da cultura da negra. Exu é metáfora da própria encruzilhada semiótica das culturas da diáspora. Aqui, na segunda PRETA, na encruzilhada de discursos, lugar de contato e contaminações, de encontro e desencontro, da mediação e da mudança, deu-se a flor de Lótus.

“O que você vê quando passa uma mulher negra na rua? Com quantas você já pensou em ter filhos? Cidinha da Silva, em Engravidei, Pari cavalos e Aprendi a voar sem asas, pergunta o que resta a essas mulheres que desde cedo aprenderam, dentro de uma lógica colonizadora, que era importante vestir o branco sagrado do matrimônio, só não sabiam que o vestido não era feito para o seus corpos.

Dani,

Quando te vejo em cena – do meu lugar de enunciação que de alguma forma se aproxima do seu e, ao mesmo tempo, se distancia – com o seu corpo grande, corpo negro de mulher preta, com subjetividades fragilizadas que perpassam todas nós, fico pensando na potência do seu corpo-Dani, na sua presença, no seu jogo cênico-dramático que atrai e estimula o público, recuperando o teatro na sua concepção de evento comunitário e, mais ainda, reatualizando, cenicamente, práticas diferentes de leitura, concepção e inscrição do real. Nós mulheres não somos iguais, temos nossas individualidades, camadas, quereres e desejos. E nós, mulheres negras, entre tantas camadas-desejos-quereres, pensamos nossos corpos como potência de vida.

O Anderson uma vez me contou que desde sempre é encantado com a imagem do equilibrista. Um corpo. Uma corda, o desejo de chegar do outro lado e a possibilidade da queda. Aqui, a queda também é potência de vida. Ele me falou de um Teatro da Queda ou do Tropeço. Corpos em movimento. Fanon, certa vez, falou para ele, Anderson Feliciano, que cada corpo em movimento sobre o solo racista é já um corpo “tropeçante”. A dramaturgia do Tropeço (conceito em desenvolvimento por Anderson na sua dissertação de mestrado em Dramaturgia) é uma dramaturgia onde se pode refletir sobre as questões raciais e também construir espaços e relações que podem reconfigurar, material e simbolicamente, um território comum. Criar situações onde corpos estão em equilíbrio -precário- e podem tropeçar, mas pensando a queda, repito, como criação, estabelecendo lugares de enunciação e tecendo outras poéticas.

Me encantei pela imagem do “tropeçante” e contaminada, no melhor sentido, pela segunda – PRETA – dia do orixá que abre os caminhos, me permito aqui, no nosso lugar de encruzilhada em que “se entrecruzam, nem sempre amistosamente, práticas performáticas, concepções e cosmovisões, princípios filosóficos e metafísicos, saberes diversos” (Leda Maria Martins), tentar “abrir caminhos”, olhar de outros pontos e nisso me pergunto sobre a possibilidade de inventar constantemente uma poética negra sem reproduzir a construção ficcionalizada e distorcida que socialmente tem-se de nós. Como olhar/falar da e para gente sem colocar na boca o discurso que o outro construiu sobre nós?

E a gente gira na gira…

“Toda mulher preta é flor de Lótus” e a essência dessa flor nos faz pensar que o corpo no âmbito da memória (também traumática) é sujeito de mudança. A senhora mãe do rio traz sonhos bons! Acredito que a nossa poética e potência também estão, e não só, nos “tropeços” das nossas vidas. O seu discurso-palavra (que de alguma forma é o meu também) se faz muito necessário, na medida em que nos possibilita pensar nossas práticas comportamentais, nos colocar em desequilíbrio como mulheres e homens e, principalmente, nos abrir para escutar o outro e refletir sobre as práticas que criticamos, mas que em algum momento acabamos por reproduzir. Na delicadeza da flor, Lótus grita que somos força, luta e guerra só quando queremos. Discurso nosso. Eu, agora, embriagada de sonhos bons, quero me colocar na minha dimensão frágil! Eu, agora, quero até os clichês e estereótipos da “delicadeza feminina” que me foi negado. Te agradeço.

Cochichando…

Dani, se o seu discurso-palavra é potente (e necessário), o seu corpo-Dani, esteticamente, como discurso, ainda é mais e, assim como Exu, é veículo da sua própria narrativa. Vamos dançar! A senhora mãe do rio traz também sonhos bons… (som do tambor).

Foto: Pablo Bernardo

Soraya Martins é mestre em Teoria da Literatura pela FALE/UFMG. Graduada em Letras – Licenciatura Português e Italiano. Atriz cofundadora da Sofisticada Companhia de Teatro, formada no Teatro Universitário, cursou Semiologia do Teatro, com Marcos De Marinis, no DAMS – Dipartimento di Musica e Spettacolo da Università degli Studi di Bologna, Itália. Desde 2011, atua no cenário artístico mineiro como atriz e pesquisadora do teatro afro-brasileiro e tem em seu currículo trabalhos realizados junto a diversas companhias, entre elas Cia Candongas, Grupo do Beco e Caixa de Fósforos.