Sobre as rachaduras, os corpos e o desejo de desmonte

Por Mário Rosa

Comentário crítico sobre a apresentação de NADA MAIS É da Laia Cia. de Danças Urbanas

Foto: Pablo Bernardo

Nada é neutro, eles dizem já bem no início. Quinta temporada e a gente lá.

Movimentos.

No esburacado da vida, nas fendas da cidade: cicatrizes, rachaduras, frestas, respiros e movimentos fugazes – dança – da política dos gestos.

segundaPRETA: um movimento. Ela não pede passagem, se faz na ação, com paradas e avanços, no acende e apaga, na reviravolta e nas tentativas de superação dos impasses. Outros desenhos constituindo linhas no emaranhado do tempo, no descompasso das horas e na afirmação da vontade.

NADA MAIS É é o que anuncia a LAIA CIA. de Danças Urbanas. E no burburinho da espera, penso na cidade, segunda-feira, 28 de maio.

O título figura como expressão de expectativas e dúvidas:

– o que permanece nesse nada mais é?

– qual o martelo eficaz pra demolição dos edifícios arRUINAnados constituídos de um passado conservador que ainda estrutura nossa vida social?

– é do sólido do discurso ou do líquido das vazantes do corpo a força disruptiva?

– “quebrou não tem mais jeito”?

Palavras e corpos na encruzilhada.

Mistura sua laia. Na recepção realizada pela Laia Cia. há a festa dos encontros, da vida, e ali as frentes são muitas, pois as singularidades se afirmam sutilmente na proposta de um junto em dança, com músicas que trazem memórias, impulsionam desejos e nos convidam a estar. Estar pela dança, pelos que ali estão, pelo que virá, pelo que não se espera na posição deslocada do espectador no início da apresentação, que é um convite ao movimento de ativação de outros modos de interação e presença.

O que afirma a experiência desse começo de todos em/na dança com a Laia é o comum partilhado e os encontros das desmedidas dos desmontes que cada um carrega e experimenta também ali, pois o nada mais é se insinua como possibilidades de variação e afetação a partir da experiência do encontro, mais do que a ruptura de um “que tudo caia”.

Nesse sentido, há algo que extrapola o individual e que se fortalece pelo que nos faz ser em relação, com todos os conflitos que isso também acarreta. Como afirma Mbembe:

Nas tradições africanas ancestrais e na experiência contemporânea, o ponto de partida da interrogação sobre a existência não é a questão do ser, mas a da relação e da composição; os nódulos e os potenciais situacionais; a junção das multiplicidades e da circulação [1]

Nada é neutro nesta segundaPRETA. Encontro entre corpos, penso eu: desejo, festa, perturbação, conexão, juntos, tensão, confronto, crise, o entre.

E neste entre há também o teatro Espanca! com suas memórias inscritas no chão, nas paredes, nas lembranças de experiências, de resistências e de fabulações de possíveis … um território, dirá alguém com precisão. Estar ali pra assistir um trabalho de dança, dança urbana dos e nos corpos, dança de alguns corpos negros, dança de um hibrido de movimentos que tensiona o social (e a própria dança urbana) e sobre a desconstrução me leva a pensar novamente em presenças e naquilo que se fortalece pela conexão das forças, pela solidariedade dos que se encontram em rotas próximas e pelas exigências dos embates na arte e na vida.

Pro “só não vale dança homem com homem” há um imediato “vale sim, vale tudo“.

Muitas coisas ainda são e estão: embates na arte e na vida.

E dançamos, até que outra espacialidade é constituída e passamos a observar a continuidade da dança em outra perspectiva.

Nada mais é tem nas intenções a vontade de demolição, de desconstrução de modos opressivos e alienantes. Corpos que no movimento apontam criticamente e performam o desconforto em situações que aludem o machismo, o racismo e o fanatismo religioso. Corpos que carregam na coreografia conflitos, entraves, impasses e gestualidades que ainda são da ordem do instituído, mesmo no esforço bem intencionado de rompimento.

Como chegar nesta ruptura?

Eles seguem. Seguimos.

Seguem no impacto e na força de um conjunto de imagens compostas pelos corpos que dançam. Corpos que são cena, são temas, tem histórias, memórias, travessias e vazantes.

Algo ali vai além da disposição orientada da crítica marcada nos corpos e nos áudios que pontuam o trabalho (e o real escapole vez ou outra por todos os buracos), algo ali afirma o compromisso de continuar, algo ali sabe que a presença pode ser resistência e conhecimento, algo ali tem a virtualidade que fragiliza molduras, principalmente quando se permitem a experiência de variação no espaço-tempo.

Vê-los em blocos e nas tensões entre o singular e o coletivo é uma experiência que desencadeia muitas sensações, pois movimentos e música trazem a complexidade da rua e de representações de corpos compondo resistências, gritos, levantes, alianças, desenhando espaços fechados de domínios e linhas de fuga. Uma proposta sustentada no vigor em variar as imagens e no tatear de uma coreopolítica [2] que não se esquece do chão pedregoso, rachado em que dançam, pelo contrário, eles dançam sobre as rachaduras, apontam para elas, mesmo que o rachar dos movimentos e dos corpos esbarrem em limitações.

As ruínas de um velho mundo ainda estão por aqui. Ruínas de uma forma mundo que permanece como assombro, ameaça, agressão, brutalidade e morte: necropolítica.

E, como é dito sobre o homem moderno em algum momento da apresentação, “tudo é muito frágil”. Um frágil difícil de ruir e que exige, além do trabalho de desmonte, força inventiva que ocupe espaços e afirme outros modos de viver.

O Nada mais é encara o desafio de tocar nesta fragilidade dura com as armas que consegue ativar. Marca posições nas gestualidades e nos movimentos que dizem muito da macropolítica e isso é muito bem-vindo. Porém, na micropolítica dos corpos muita coisa ainda é, e os jogos de posições, jeitos de corpos e narratividades de conflitos se apresentam em cena como crise, impasse ou, como afirmou Elisa Nunes no debate, negociação.

O desejo de ruptura está lá com eles. Assim como a presença que sempre diz mais que o intencionado, principalmente quando movimento-corpo-lugar entram em variação e dissenso. Quando isso acontece, gestos perdem finalidades, movimentos sustentam a crise no próprio corpo, na própria dança.

Segundo Lepecki,

(…) a rachadura, finalmente, não é mais do que o chão emergindo como força coreopolítica: desequilibrando e desestabilizando  subjetividades predeterminadas e corpos pré-coreografados para benefício de circulações que, apesar do agito, mantêm tudo no mesmíssimo  lugar. A rachadura já é o chão, já é o lugar, e é com sua parceria que  podemos agir o desejo de uma outra vida, de uma outra pólis, de uma  outra política – de uma coisa outra (…)[3]

Outra coisa que se faz no atrito, no reconhecimento das limitações e dos tropeços que podem constituir formas de “rachar o estado das coisas”, encarando o desafio político e artístico de olhar ao redor e para si, de reconhecer o tamanho do desafio e ainda assim… rachaduras lá e aqui: sobre camadas do real, sobre as ruínas.

Foto: Pablo Bernardo

[1] MBEMBE, Achille. O fardo da raça. (série Pandemia). São Paulo: n-1 edições, 2018.
[2] LEPECKI, Andre. Coreopolítica e coreopolícia. Revista Ilha, v. 13, n. 1, p. 41-60, jan./jun. (2011) 2012.
[3] Idem, página 57.


Mário Rosa é Historiador, mestre em arte e educação pela FaE-UFMG, dramaturgo e professor.